sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Amar e prazer

Amar e prazer





Amar e prazer

Rogel Samuel


A noite é feita para o amor, diz o poeta. No Brasil, com essas praias, com esse sol, a noite é para dormir.

Nosso amor é diurno. Ainda nos amamos? Amar é um dom precioso. Só quem sabe o amor sabe ser feliz.
Geralmente queremos ser amados, não amar.
Amar é tão mais importante que ser amado, pois nos tira de nossa solidão solipsista.

Amar não é vantajoso, pois é doação. O amor não, tira. O amor dá.

O amor que é doação
não conhece a lua sombria.

Só dando espaço ao ser amado
o teremos sempre de volta.

O poema de Byron:



Não mais prazer nos daremos



Não mais prazer nos daremos

até a noite acabar,

se bem que inda nos amemos

e como antes brilhe o luar.

A espada à bainha gasta,

as almas cansam o seio.

Coração que não se afasta

pode até ficar em meio.

Para o amor a noite é feita,

e depressa chega o dia.

Mas o prazer nos enjeita

à luz da lua sombria.



(BYRON, trad. Jorge de Sena) 

QUINZE: A LIVRARIA.


QUINZE: A LIVRARIA.


AQUELE era um cômodo sem janela, debaixo da escada, e ali dentro sentia-se muito calor, umidade e mofo.

Para Ribamar, um luxo. Naquele quarto, durante uma década, vivera a finada Benedita, velha empregada de Juca das Neves, muito asseada. Mas na parede mofada a umidade alargara duas manchas pardas. Ribamar armou a rede, deitou-se. Poderia sair sem ser visto pelas pessoas da casa, pelo corredor lateral. No primeiro andar, o piano de Melina tocava uma mazurca de Chopin. Juca das Neves já se tinha recolhido. Naquele dia, Ribamar conhecera o Hotel Cassina, em decadência, a se transformar no Cabaré Chinelo. Conhecera o Alcazar, a Livraria Royal, na Rua Municipal, 85, expostas as novidades de Garcia Redondo, de João Grave, de Júlio Brandão e Bento Carqueja - autores da moda. Ali havia um livro de Carmen Dolores, outro de Haeckel. Eram panegíricos e leitura recreativa. A “Biblioteca para o Povo”, a “Biblioteca Racionalista”. Os Serões da Aldeia, de João de Lemos. Um livro se intitulava De cara alegre, de Alfredo de Mesquita e tinha sido um best-seller. Custava $50. Juca das Neves tinha parte da biblioteca de Pierre Bataillon em casa. Melina não tocava mal. Ribamar recordava-se de Pierre Bataillon tocando Schubert. Alvarengas rebocavam pélas de borracha. Ribamar passara pela porta do London Bank. As alvarengas suaves entravam na porta do Banco. Ivete, quando era servente, vivia quase nua. Ribamar estranhou encontrá-la, agora, grande dama, casada com Antônio Ferreira.



domingo, 15 de outubro de 2017

JEREMIAS E OS MORTOS DA BAIXADA

JEREMIAS E OS MORTOS DA BAIXADA

ROGEL SAMUEL

«Na sexta-feira, 1 de abril de 2005, chacinas no Rio podem ter matado 41 pessoas. Foi uma das madrugadas mais sangrentas no Estado.» Noticiários transformados em plantões policiais.


Escreveu Cassiano, em «Jeremias sem chorar». 



«A esperança mói.
A esperança dói.»

Antes da queda do muro de Berlin, estava eu em casa do Lothar, na Mendelsonstrasse, em Frankfurt. Via tv todos os dias, fora estava frio. Comentei, para ele: «Não vejo notícias de crimes, por aqui». Ele retrucou: «Não há, não. Uma associação de consumidores impôs, em ação na Justiça, que não se divulgasse isso».
- Por quê? Perguntou o senso comum brasileiro. Não fere a liberdade de imprensa?
- Não, disse ele. A media tem de estar a serviço da população...
- Mas a população não deve ser informada sobre o perigo?
- Não é o caso, argumentou ele. Se há um assassino, ou uma quadrilha solta na cidade, não é meu problema, mas da polícia, cabe à polícia prendê-lo. A polícia tem o dever constitucional de proteger-me, e para tal é paga. Quanto à imprensa, não tem o direito de aterrorizar-me. 

Calei-me. 


Pareceu-me ter um ar
de abismo, não obstante alva
e limpa como uma estrela-


Cassiano Ricardo, dos maiores poetas do Brasil. Sob certos aspectos, o maior de sua geração, na técnica, na variação de sua poética, «renovando a poesia», disse Cabral. Sobre ele, Oswaldino Marques escreveu o clássico da crítica literária brasileira: «O laboratório poético de Cassiano Ricardo». 


Lembra Oswaldo Mariano a observação de Mestre Alceu de que Archibald MacLeish escreveu que o poema deveria ser um «globe fruit», integrado no «pensamento planetário», na era cósmica. Por isso, diz o autor do prefácio, no livro predomina «a esfericidade semântica», e a rima «esfera» e «espera». Ou em «Os sobreviventes»:

Milhões de crianças chorando
na noite esférica.
Por que choram?
Não são
elas que choram.

É o futuro.


Escreveu Archibald MacLeish:


Haverá pouca coisa a esquecer: 
o vôo dos corvos, 
uma rua molhada, 
o modo do vento soprar, 
o nascer da lua, o por-do-sol, 
três palavras que o mundo sabe, 
pouca coisa a esquecer. 

Em «Os que virão depois», diz Cassiano:

não os sobreviventes 
que hoje usam máscaras 
pra fingir de vivos 
não os que poderiam 
ter morrido esta noite 
sob a chuva de sol 
nuclear 
mas os que acordarão 
como pássaros 
que anunciam o amanhe- 
cer 
sem nenhuma surprêsa 
de ainda estarem 
vivos 
É assim na tradução de Bandeira.
É assim nos mortos da Baixada.

Sim, acordar. Como os pássaros. Mas sem nenhuma surpresa acordaremos vivos, sem a esperança que dói. O mundo que mais parece abismo, uma estrela branca, pairando no ar. Quando morrer esquecerei de tudo, e todos me esquecerão. Haverá, de pouca coisa a esquecer, quase nada: o fracos poucos versos que fiz, os romance que construí, essas minhas crônicas. Pouca coisa. Três palavras que o mundo sabe. Para mim, será bem mais difícil esquecer: meu amor fracassado, minhas impossibilidades, meu caso perdido. Acordar, renascer? Não creio. Meus olhos fechados sob a campa. Não verei nem o nascer da lua, nem o por-do-sol. 

A chuva pinga, na argila rasa.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

NOVA REIMPRESSÃO DA SEXTA EDIÇÃO

NOVA REIMPRESSÃO DA SEXTA EDIÇÃO


Estranho grande poema - Rogel Samuel

Estranho grande poema - Rogel Samuel


Estranho grande poema - Rogel Samuel
Escreveu Pedro Benjamín Palacios, conhecido como "Almafuerte", um estranho poema, próprio para o que vivemos nós:

"Não se dê por vencido, nem, se vencido, não se sinta escravo, nem, se escravo, não fique trêmulo de medo, imagine-se como um bravo, e ataque feroz, ainda que mal ferido, com a tenacidade do prego enferrujado que velho e gasto, mas volta a prego, sem a estupidez não covarde do pavão que amaina sua plumagem ao primeiro som, continuando como Deus que nunca chora, ou Lúcifer, que nunca lê, ou como o carvalho, cuja grandeza necessita de água, e não a implora ... que morda e se vingue rolando na poeira, sua cabeça!"

No te des por vencido, ni aún vencido,
no te sientas esclavo, ni aún esclavo;
trémulo de pavor, piénsate bravo,
y acomete feroz, ya mal herido.
Ten el tesón del clavo enmohecido
que ya viejo y ruin, vuelve a ser clavo,
no la cobarde estupidez del pavo
que amaina su plumaje al primer ruido.
Procede como Dios que nunca llora;
o como Lucifer, que nunca reza;
o como el robledal, cuya grandeza
necesita del agua y no la implora...
¡Que muerda y vocifere vengadora,
ya rodando en el polvo, tu cabeza!

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

CASIMIRO DE ABREU - PRIMAVERAS



CASIMIRO DE ABREU - PRIMAVERAS
O Primavera! gioventú dell'anno, 
Gioventú! primavera della vita.
METASTASIO
I
A primavera é a estação dos risos,
Deus fita o mundo com celeste afago,
Tremem as folhas e palpita o lago
Da brisa louca aos amorosos frisos.
Na primavera tudo é viço e gala,
Trinam as aves a canção de amores,
E doce e bela no tapiz das flores
Melhor perfume a violeta exala.
Na primavera tudo é riso e festa,
Brotam aromas do vergel florido,
E o ramo verde de manhã colhido
Enfeita a fronte da aldeã modesta.
A natureza se desperta rindo,
Um hino imenso a criação modula,
Canta a calhandra, a juriti arrula,
O mar é calmo porque o céu é lindo.
Alegre e verde se balança o galho,
Suspira a fonte na linguagem meiga,
Murmura a brisa: - Como é linda a veiga!
Responde a rosa: - Como é doce o orvalho!
II
Mas como às vezes sobre o céu sereno
Corre uma nuvem que a tormenta guia,
Também a lira alguma vez sombria
Solta gemendo de amargura um treno.
São flores murchas; - o jasmim fenece,
Mas bafejado s’erguerá de novo
Bem como o galho do gentil renovo
Durante a noite, quando o orvalho desce.
Se um canto amargo de ironia cheio
Treme nos lábios do cantor mancebo,
Em breve a virgem do seu casto enlevo
Dá-lhe um sorriso e lhe intumesce o seio.
Na primavera - na manhã da vida -
Deus às tristezas o sorriso enlaça,
E a tempestade se dissipa e passa
À voz mimosa da mulher querida.
Na mocidade, na estação fogosa,
Ama-se a vida, a mocidade é crença,
E a alma virgem nesta festa imensa
Canta, palpita, s’extasia e goza.
1º de julho de 1858.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017