sábado, 22 de abril de 2017

Cidades



Cidades

Rogel Samuel

Da janela se vê a torre da capela, entre as árvores, no sopé 
da montanha. 
As magnólias brancas reverdecem, ainda sem flores. 
O resto é floresta. 
Como será aquela igrejinha no meio da paisagem? 
Uma grande torre de nuvens se ergue sobre o céu, e parece mais alta ainda do que as mais altas montanhas. 
Um aeroplano cruza o espaço azul claro. 
Em Katmandhu, quando o céu está limpo e claro, se podem ver as brancas e grandes geleiras dos Himalaias, ao longe, como uma dentadura de reluzente cristal. 
Eu quero muito voltar para lá, rever Boudanath e Thamel. 
Há cidades incorporadas na nossa substância mental : Manaus, Sydney, Katmandhu. E esta Poços de Caldas. 
As cidades são nossas personalidades edificadas em pavimentos, ares. 
Um dia, um amigo disse, em Manaus : « Amanhã o R. vai-se sentir em casa ». Porque eu voltava para Rio. 
Mas eu não consigo ver o Rio dentro de mim, senão quando estou muito longe. 
Aí me ocorrem imagens, lembranças, músicas. Marchas de carnaval. 
A estupa de Jerukhanshor, em Boudanath; o Teatro Amazonas, em Manaus; a casa do Chris, em Portland; a UBC, em Vancouver. 
Onde eu realmente gostaria de estar? 
Não sei, não tenho raízes profundas. 
Um dia Lothar, em Frankfurt, me disse que ele era cidadão das 
cidades. Mendelshonstrasse, onde estava. 
Em Manaus, na rua Sete de Setembro. Pelas janelas dos fundos se via o Rio Negro. Havia um gavião, que habitava um buraco perto do telhado da edificação de uma velha fábrica. 
Todas as tardes, ao por do sol, eu ia de binóculo vê-lo. 
Parecia uma águia romana, desafiava o espaço, de asas abertas. 
Soberano. 
Aquela fábrica datava da época da borracha. Ficava nos fundos do cinema que havia nas margens do igarapé, creio que Cine Éden, ex-Alcasar, hoje igreja evangélica. 
As ruas guardam também muito sofrimento, camadas de lembranças acumuladas e mortes.
Como os trechos escuros de Paris. 
Qual a cidade mais alegre? 
Depende de cada um, de suas lembranças. 
E das magnólias.

O BRASIL QUE VIRÁ

O BRASIL QUE VIRÁ
de
GILBERTO FREYRE



Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil
mãos para agir pelo Brasil
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e 
norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos

sexta-feira, 21 de abril de 2017

SOMOS MEMBROS UNS DOS OUTROS



SOMOS MEMBROS UNS DOS OUTROS

Rogel Samuel

«Somos membros uns dos outros», dizia São Paulo aos cristãos de Efeso. 
Isto é citado por Laín Entralgo, em texto que incluímos recentemente no nosso site.
Entralgo, pensador da direita espanhola, discípulo de Ortega, 
sempre exerceu sobre mim extraordinário fascínio.
Define ele a capacidade do homem de considerar-se pessoa por 
dois conceitos: o próprio e o alheio. 
Na esfera do próprio, estabelece Laín duas diferentes esferas: a do 'meu' (que define a própria estrutura do eu), e a do 'em mim' (que posteriormente ele estuda na patologia). 
Como a pessoa é capaz de relacionar-se com a outra? como considerar o outro como outro eu? como analisar o encontro, como estabelecer relações de amizade? 
Para ele, a realidade consiste em ser 'de si' e em 'dar de si''. 
A realidade se faz presente e cognoscível na impressão de realidade que a coisa oferece ao sujeito que a percebe. 
Seu principal livro, de Entralgo, raríssimo entre nós, se 
chama 'Teoria e realidade do outro', que só consegui ler na 
Biblioteca Nacional. 
Nesse, ele percorre com maestria toda a filosofia ocidental desde os pré-socráticos, e vai em busca da teoria da consciência do outro, do outro como outro eu, onde a consciência de si é a consciência do outro. 
Assim era em Hegel, quando o sujeito suprassumia a si no outro a que se opunha numa negação: eu não sou o outro. 
Lain também era médico. Escreveu tratados de medicina. 
Faleceu no ano passado, com mais de 90 anos.
Essas considerações vêm antes de ler o CANTO 1, 26 de Jorge 
de Lima, em INVENÇÃO DE ORFEU:

Qualquer que seja a chuva desses campos 
Devemos esperar pelos estios; 
E ao chegar os serões e os fiéis enganos 
Amar os sonhos que restarem frios. 

Porém senão surgir o que sonhamos 
E os ninhos imortais forem vazios, 
Há de haver pelo menos por ali 
Os pássaros que nós idealizamos. 

Feliz de quem com cânticos se esconde 
E julga tê-los em seus próprios bicos, 
E ao bico alheio em cânticos responde. 

E vendo em tôrno as mais terríveis cenas, 
Possa mirar-se as asas depenadas 
E contentar-se com as secretas penas. 

Alguns poetas tiveram, ou revelam, alguma dificuldade de 
relacionar-se com o outro ('os ninhos imortais forem vazios'). 
'Imortal' - traduz o 'felizes para sempre'.
A felicidade presente ('a chuva desses campos') atinge a solidão do futuro ('Devemos esperar pelos estios'). 
Sua poesia reside nisso. 
Entre 'os serões e os fiéis enganos' há uma solidão sempre ali, sempre fiel, uma vocação de 'amar o perdido', o passado: 'Amar os sonhos que restarem frios'. 
Os ninhos estarão vazios, e neles só os pássaros os idealizados.
A estrofe:

Feliz de quem com cânticos se esconde 
E julga tê-los em seus próprios bicos, 
E ao bico alheio em cânticos responde. 

Marca o centro do reconhecimento de si no outro inexistente, no outro distante, impossível.
Diz esses versos: Eu me escondo nos versos que canto, canto 
com o fingimento do canto.

É o contentar-se descontente de si consigo mesmo, e em si.

E vendo em tôrno as mais terríveis cenas, Possa mirar-se as asas depenadas E contentar-se com as secretas penas. 

As asas depenadas não voam. O coração não ama. As cenas ao 
redor, terríveis. As dores não se expressam e são secretas. Os ninhos vazios, os enganos fiéis, mas a poesia de Invenção de Orfeu mantém a sua imortalidade e beleza.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

MEUS MORTOS HÃO DE VIR NO FIM DA TARDE

MEUS MORTOS HÃO DE VIR NO FIM DA TARDE


Rogel Samuel


De minha cara amiga Graça Carvalho recebi um precioso presente, a “Cartilha do bem sofrer com lições de bem amar”, do seu pai, o super-poeta amazonense Farias de Carvalho, publicada em 1967 e desde então esgotada.
            Lá re-encontro o poema “Ocaso”, que não lia desde que Farias de Carvalho foi meu professor, no noturno do Colégio Estadual, onde ele lecionava literatura e eu tanto aprendia com ele: “Meus mortos hão de vir no fim da tarde”.
            Só dá para ler este belo texto quem o situa na Manaus da década de 50, ou início de 60, quando foi ele escrito.
            Aquela era uma cidade sem iluminação, ilhada no meio da maior floresta tropical do mundo. Ao cair da tarde, as perigosas trevas da floresta invadiam, a nostalgia da escuridão e da morte ameaçava, aquele Rio Negro ficava realmente Negro. Negro como a Morte Negra. Negro da morte de vinte e oito mil índios vitimados em 1729, numa hecatombe nunca esquecida por aquelas margens, de tal sorte que perto dali há um rio, chamado Rio Urubu, “rio doente para sempre, / desde o município de Silves”, como certa vez escrevi; rio onde um dia meu pai não me deixou mergulhar, “como se ali o rio pudesse /  para sempre me tragar”.
            Naquelas águas estão sepultados nossos antepassados e o grande guerreiro Ajuricaba, o herói que está em toda a parte ao mesmo tempo [Aiuricaua], rio de sangue Negro, de  espinhos venenosos, de cadáveres históricos. Há demônios nas margens e eu me lembro da impressão trágica, da depressão que nos assaltava, ao cair da tarde, quando a cidade invadida por nuvens de moscas besouros, piuns, carapanãs sanguessugas, corujas, e aranhas peludas que saíam de seus esconderijos, e escorpiões de ébano que procuravam caça, a floresta ameaçada agora ameaçava, retomava e reconquistava o seu lugar em São João da Barra, nos expulsando para sempre, tudo debaixo da gloriosa chuva do ouro do mais esplendoroso por-de-sol do mundo, algo como explosão de bomba atômica terminal, final, de fim de mundo, finnisterra, que se expandia em coloridas nuvens para todos os lados, junto com misteriosas aves do entardecer.
            Ajuricaba veio do rio Hiiaá, na margem esquerda do Negro, entre o Padauari e o Aujurá, no distrito de Lamalonga. Para salvar seu filho caiu em emboscada e foi prisioneiro da Coroa Portuguesa, em 1729, a Coroa o queria vivo para o supliciar com castigo e morte. No caminho, Ajuricaba, que era homem fortíssimo, arrancou do poste o grampo que o prendia e, com as correntes nas mãos algemadas, faz a matança dos soldados portugueses antes de se precipitar nas águas escuras do Rio Negro, onde morreu, não sem antes as amaldiçoar, e diz a lenda que é por isso que aquelas águas são estéreis, e não têm peixe. Logo depois, em vingança, o capitão Belchior Mendes de Moraes dizimou 300 malocas, matando em sacrifício mais de 28 mil índios das margens do rio que passou a se chamar Rio Urubu devido à montanha de cadáveres. E mais tarde balesteiros, sob o comando de um padre de nome piedoso, Frei José dos Inocentes, depois nome de rua de puta em Manaus, espalharam roupas contaminadas com varíola que disseminaram uma gigantesca epidemia que infectou 40 mil índios, arruinados de varíola, que é uma doença infecto-contagiosa, virulenta, que apodrece o corpo ainda vivo com erupções de pus e raquialgia, pápulas, pústulas, cegueira e agonia de uma morte bacteriológica lenta, os cadáveres semi-vivos sendo devorados por moscas, piuns, carapanãs, mutucas, cabo-verdes, potós, catuquis, marimbondos, suvelas, besouros e formigas. A saúva antropófaga devora um corpo em 20 minutos. Na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em 1908, os mortos largados no caminho para serem enterrados na volta (30.430 operários foram internados no Hospital da Candelária, entre 1908 e 1912) e quando a locomotiva voltava só encontrava ossos brancos e limpos, comidos pelas saúvas. E também a formiga-de-fogo, a saca-saia, a lava-pés, a manhura, a cabeçuda, a taioca, a carregadeira, a táxi, a tracuá, a tocandira, peluda, enorme, venenosa, uma única picada basta para abater um homem, com fortes dores e febre, usada pelos índios na iniciação masculina dos garotos, que tinham de enfiar o braço numa cumbuca de tocandiras para provar que eram machos. E a formiga roceira, e a cortadeira, e a guerreira, a correição. Von Martius descreveu populações inteiras fugindo das formigas. As açucareiras eram capazes de fazer recuar um inteiro exército!
            Por isso os mortos vinham no fim da tarde, “molhados da ferrugem líquida do rio”, diz o poeta,  “que banha as margens dêste ...  silêncio lúcido e sonoro / que embala na praia ao fim das tardes / os olhos de éter dos defuntos tortos / que lambem com o olhar a praia longe”.
            Além disso, o trágico planger dos sinos da Matriz, construída por índios, da Igreja de São Sebastião, da Igreja dos Remédios, que se ouviam na inteira cidade, graves, ameaçadores, profundos, lembravam a Morte, e as rádios todas tocavam umas Avemarias, a Rádio Baré, a Difusora, a Rio-Mar, rádios de meu tempo, e misteriosas velhas beatas vestidas de negro, veladas, engolfadas, balbuciantes de preces, que se dirigiam às missas, entrando ainda sob a saraivada de toques dos imensos sinos magistrais.
            É claro que, para nós, jovens poetas, devassos e boêmios, era a hora de nos preparar para as aulas e depois beber no Bacurau, no início da João Coelho, junto com catraieiros, prostitutas, mendigos e bandidos alcoólatras, provando aqueles peixes fritos, o pacu, a sardinha, o matrinchão, entre goles de cachaça barata; ou íamos para o Bar Bolero, que ficava na Cachoeirinha, na Rua Belém (creio eu, pois a memória já me falha), onde ouvíamos Nelson Gonçalves cantar os maiores sucessos em serenata, como os “Lábios que beijei”, e isso ia até ao raiar do dia, quando voltávamos, bêbados, felizes, para nossas casas, a pé, sob o latido generalizado dos cachorros dentro dos muros das casas, cães que não compreendiam por que tão tarde (e tão cedo) passávamos nós por ali, no deserto das ruas que um dia inspirou o poeta L. Ruas a escrever:

Ah!
Esta lua
Neste fim de rua


quarta-feira, 19 de abril de 2017

E O CONGRESSO?


E O CONGRESSO?

Rogel Samuel

Oh, Amigos, não esqueçamos o futuro Congresso. Só pensamos nos quatro cavalheiros do apocalipse. Esquecemos o principal: Quem manda é o Congresso. O Poder é ele, está nele. Ele pode por um presidente de joelhos, pode tirar e por. Collor caiu porque comprou briga com as elites, isto é, com o Congresso. Pensam que foi só o PC? O Congresso é a Democracia, seja lá o que esta vazia palavra queira significar. É sempre a mesma contradição brasileira: o povão elege o presidente; as elites, o Congresso. Esta eleição talvez seja diferente, vamos ver. Sou pessimista por nascença (sou meio índio). Não é o mal quem sempre vence? - dizia o velho Marcuse. São das elites os meios de comunicação, o capital. O ultrapassadíssimo Marx dizia: "Quem detém os meios da produção material, detém os meios da produção intelectual". Democracia: não governo do "povo", mas das elites. Da 
classe dominante. Econômica. Por isso, ai Amigos, cuidado com o Congresso futuro, ele vai decidir a vida da nação (ou seja, a nossa). 
Os meios de comunicação são espertos: concentram tudo na figura do candidato a presidente. O Congresso: Nos seus corredores, nas reuniões sigilosas, nas suas comissões - lá tudo se decide. Quem governou com tão grande maioria do que FH? O Malan e o FH nada seriam sem o Congresso que lhes deu apoio, à custa sabe Deus de quê.

Há mais de vinte anos. Eu trabalhava numa faculdade particular. Meu patrão era o falecido deputado Gama Lima. Direitão (líder da Arena na Assembléia), comigo se abria:
- Deputado, quem vai ser o próximo presidente?
- O General João Batista de Figueiredo, de botas pretas, vai subir a rampa do palácio no seu garboso cavalo...
Anos depois, pergunto:
- Deputado, animado para a próxima eleição?
Ele responde:
- Ah, meu amigo, meu tempo já passou. Hoje, se você não for apoiado por um bicheiro não se elege no Rio de Janeiro.
(Isso naquele tempo. É claro.)

Na mesma época contavam (não sei se verdade) que o falecido bicheiro Castor de Andrade, riquíssimo, gostava de Johnny Mathis e para uma festa de aniversário em sua casa em Bangu simplesmente o contratou. 
Dizem que Johnny veio direto para a festa e de lá voltou para o aeroporto sem que ninguém por aqui soubesse. As más línguas afirmam, entretanto, que o cantor de "Midnight Cowboy" levou com ele um jogador do Bangu para os Estados Unidos. Mas tudo lenda daquela época, talvez.

SER BUDISTA - Rogel Samuel

SER BUDISTA - Rogel Samuel
Quando o queriam reprovar, diziam que ele era budista. Aquilo significava na década de 60 uma espécie de religião esotérica misticismo maluco de hippie. Outros, vendo que ele não era nem melhor nem pior que todo mundo, perguntavam: "Que espécie de budista é você?" Para muitos ele não era budista porque comia carne. Para outros, porque gostava de um chopinho e praia. Os intelectuais riam dele no passado, porque era budista. Anos depois perguntavam: "você ainda é budista?" Uma confusão, classificá-lo, pois agora viam que ele era ou sempre tinha sido de um marxismo radical, fora de moda. As pessoas que faziam análise, diziam: "se isso te faz bem..." - o que queria dizer: "coitado... que asno!" (sem saber que ele tinha feito análise freudiana dez anos). Mas aos poucos a coisa foi mudando. Foram aparecendo budistas famosos. Richard Gere, por exemplo, discípulo do Dalai Lama, como ele. O próprio Dalai Lama veio duas vezes ao Brasil, fez sucesso. Virou best-seller. Discurso para os estudantes. No meio aparece gente como Caetano. Começaram a achar quer ser budista não era tão mal assim. Estava na moda. Ele, de repente, estava na moda. Mas, depois de ser budista de carteirinha por mais de quarenta anos, ele não sabia dizer se ser budista era ser alguma coisa, ou se há algum ser budista. Não havia nada de diferente! Talvez se podia afirmar: você "pratica" duas horas por dia - e aí, a diferença. Mas ele praticava sozinho, escondido (sua prática era secreta). Em casa. Onde ninguém via. Nem contava pra ninguém. Ou talvez alguém poderia "acusá-lo": Você tem um guru! Sim, sim. Era verdade! Ser budista era isso: Ter um guru. O que é ter guru? Complicado. Ainda que o guru more na Índia, do outro lado do orbe terrestre, ele acordava pensando no Guru, no Sagrado Guru. Passava o dia a lembrá-lo, a todo momento. Ao dormir, seu último pensamento, seus sonhos - era o Guru. Sim! O guru dominava sua vida. Mas ninguém via, ninguém sabia. Isso era ser budista, a diferença. Poucas pessoas, poucos budistas mesmos, tinham realmente guru. Poucos podiam bater secretamente no peito, dizendo para consigo: "Eu tenho um Guru". Além disso tinha de haver recebido, é claro, Annutara Yoga Tantra da boca do Guru de carne e osso. O Guru tinha de ter colocado o vaso sobre sua cabeça. Mas isso é outra estória. O difícil era saber prosternar-se para outra pessoa, de carne e osso como ele, bater a testa no chão aos pés do Guru. Até diante da fotografia do Guru. A maioria das pessoas, orgulhosas, nunca faziam isso. Era demais. Sim, o verdadeiro budista não lastimava a destruição das estátuas famosas de Buda, porque, para ele, o problema não era perder estátuas, mas perder o Ensino, perder o Buda que era o Guru. Para ele, o Guru era o Buda em pessoa. Coisa muito complicada para explicar para as outras pessoas. Pois, o que é ser budista? Nada. O budista não existe. Não existe ser budista. Tudo é vacuidade e vaidade dos homens.

terça-feira, 18 de abril de 2017

POR QUE KAFKA ESCREVIA EM ALEMÃO?



POR QUE KAFKA ESCREVIA EM ALEMÃO?

ROGEL SAMUEL



Artigo publicou Nuria Amat, a consagrada autora de “Todos somos Kafka” (Madrid, Anaya & Mario Muchnik, 1993), em “El País”.

Antes, em outro lugar, disse ela que Kafka foi o primeiro que “pôs em crise a família, o casamento, o trabalho”. E tudo. “Ele foi o precursor, o profeta”.

Nuria Amat nasceu em Barcelona, em 1950.

Filho mais velho de abastado comerciante judeu, Kafka cresceu sob as influências de três culturas: a judaica, a checa e a alemã. Mas era um estranho a todas elas.

Ele aprendeu alemão como sua segunda língua, mas só falava tcheco em casa. Nunca foi reconhecido em vida e seus livros, na maioria, se editaram postumamente, pelo amigo Max Brod. E antes de morrer, deixou escrito o pedido de que seus livros fossem queimados. Não foram. Vinte anos depois de sua morte estava ele mundialmente famoso.

Mas Kafka não era escritor alemão. Era tcheco. Porém escrevia em alemão.

Outros dizem que era “judeu”. Mas parece que a tradição judaica não aparece em sua obra. Conforme se lê em Carpeaux.

Assim, nem alemão, nem tcheco, nem judeu, Kafka era um exilado. Em qualquer parte do mundo. E transformou-se num símbolo da literatura moderna. Literatura exilada.

Em vida suas obras não despertaram nenhum interesse. Otto Maria Carpeaux, em “Vinte e cinco anos de literatura” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967), conta que conheceu Kafka durante uma reunião literária em Berlim em 1920. Lá, Carpeaux foi apresentado a um “rapaz magro, pálido e taciturno” que despertou o seu interesse por seu olhar misterioso e perscrutador. Ao indagar de quem se tratava, recebeu a seguinte resposta: “É de Praga. Publicou uns contos que ninguém entende. Não tem nenhuma importância!...”

Nuria Amat disse que: “el escritor vive en una constante contradicción. Por un lado, un escritor en este sentido, tiene que ser muy ambicioso, claro, porque cada vez que uno se pone a escribir seriamente, en realidad lo que está diciendo es: «Voy a competir con Cervantes»… por otro lado es necesario vivir esto con cierta ironía… ¿Para qué escribir? Para sobrevivir...”

Como Kafka, Nuria Amat escreve em castellano, sendo catalã.

Segundo Borges, “Kafka renovou o paradoxo de Zenão de Eléia: uma flecha não pode chegar a sua meta porque antes tem que passar por um ponto intermediário, antes por outro ponto intermediário, e assim sucessivamente temos um número infinito de pontos onde a flecha em cada momento está imóvel no ar, e somando imobilidades não se chega nunca ao movimento. No caso de Kafka, podemos pensar que um de seus temas é a infinita postergação”.

Tudo isso a propósito do artigo de Nuria Amat “Kafka en Francfort”, publicado em “El País” de 16 de outubro de 2006.

Ela mostrou como Kafka foi questionado, ignorado ou mesmo repudiado em seu país de origem.

Em Praga ele não era, até sete anos atrás, considerado tcheco (porque era judeu e escrevia em alemão), disse Marta Zelezna, da Sociedade Franz Kafka. Na edição tcheca do “Quem é quem” Kafka não aparece. E somente agora, em 2006, se publica pela primeira vez a obra completa do escritor em tcheco.

Escreve Amat que “Kafka não se sentia bem em Praga”.

Assim como Praga o rejeitou até bem pouco tempo.

E conclui Amat que Kafka era um escritor sem pátria nem língua própria.

Mas era Kafka o maior escritor de Praga.

CONFLUÊNCIA - Rogel Samuel

CONFLUÊNCIA - Rogel Samuel
Escrevo da rodoviária. Ao meu lado, um sertanejo idoso lê vagarosíssimo uma carta de cinco folhas de caderno escritas em tinta azul. Distingo ler algumas linhas: "...o lindo lenço que ganhou...", "...a terrível crise que estamos passando...", "...a mãezinha e nosso irmão..." Há vários viajantes apressados. Ouço música sertaneja. Na minha frente um jovem alto, branco e sólido, vestido de bermuda curta azul e camiseta clara. Parece um atleta. Vejo de repente passar um conhecido. Não tem bagagem nas mãos, deve estar esperando alguém que chega. Saio, vou ver os jornais. Não os compro. Só os leio pela Internet. Nas capas de revista os esquecidos... Tudo passa. Mesmo os arrogante romanos passaram. Na Idade Média, uma rã coaxava com tranquilidade sobre a pedra de onde Cícero discursava. Há uma jovem que chora, sozinha. Aproximo-me, sento perto. Por que chora? É muito jovem, magrinha, saía da adolescência. Chora. Tenho vontade de
chegar mais perto, abraçá-la. Perguntar, "por que chora?" Mas não ouso. Não é um pranto alto, convulso, mas interno, para dentro de si, lá onde a dor é mais secreta, mais funda. Quase não há lágrima. Está desolada e só, nesta cidade terrível, com seus cadáveres, seus bandidos, seus fracassos, seus jardins e praias e mágoas. Volto-me e vejo que o velho continua a ler sua carta de cinco folhas. Seus lábios tremem.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sobre a liberdade

Sobre a liberdade




Rogel Samuel



A Internet sempre me lembra o conceito de Fromm para a liberdade, “objetivo cobiçado para uns e para outros uma ameaça”. Como a web é um espaço livre, onde você vê, lê diz e ouve o que quer, muitos a temem. Há os que só podem viver na submissão (de uma religião, de uma lei, de uma autoridade, ou da polícia) para serem éticos. Em grego, “ethos” significa caráter, ou seja, modo de ser. Refere-se ao juízo do bem e do mal social. É uma ciência do relacionamento. As ditaduras odeiam a Internet. A China impunha uma fiscalização e controle rigoroso até nos hotéis. Recentemente decidiu criar uma nova internet, alegando que a estrutura atual da rede mundial de computadores não vai dar conta do número de usuários entrando na internet ao mesmo tempo, principalmente em países muito povoados, como a China, onde atualmente há mais de 120 milhões de internautas, com um potencial de crescimento do tamanho de sua população de mais de 1,2 bilhão.
Talvez seja uma desculpa. Talvez não.
Mas a rede mundial de computadores que hoje usamos nasceu no governo americano, no poderio militar americano. Era um projeto da década de 70, chamado Arpanet, que passou para o meio acadêmico, acabando no que a gente tem hoje, a internet comercial, democrática (com algumas exceções, como a da China), mesmo assim ligada ao governo americano e, claro, às empresas americanas. Até hoje, o ICANN, que é a entidade internacional que “controla” o endereçamento na internet, continua sob o “domínio” do Departamento de Comércio Americano que, jurando neutralidade, agregou representantes de todos os países que queiram participar, inclusive o Brasil.
Mas a ponta do iceberg de uma revolução que pode vir a explodir a qualquer momento.
Ou de uma guerra virtual.

domingo, 16 de abril de 2017

Auto de Natal em Copacabana

Auto de Natal em Copacabana

Rogel Samuel

(Madrugada. Calçadão, perto do Copacabana Pálace):
- Venham, irmãs! Acorrei com suas glórias! O Filho do Senhor acaba de nascer!
(E logo, múltiplas Graças vestidas de bruma se reúnem em festa ao redor de  adolescente negra, moradora de rua, que acaba de dar à luz na calçada. É uma garota negra, sorridente e feliz, chamada Maria. O Pai, um desempregado cearense alcoólatra, de nome José, sujo e sem nada entender, achando que vai ter confusão e polícia, atravessa a rua e some na praia escura, com uma garrafinha de plástico branca nas mãos. As Graças, que se sabem ser oniscientes, tornam-se invisíveis para não chamar atenção, mas não há quase ninguém por perto, além de raros porteiros e seguranças com celulares nas mãos.
Das varandas luminosas dos prédios de luxo vem forte som de música de suas festas de Natal. Dançam. Um grupo animado de jovens bêbados passa gritando num carro. O vento interior vem do mais longínquo mar com sua ressonância salgada e boa, para homenagear o Filho do Homem. Maria, a jovem parturiente, agasalha-o nos trapos de que dispõe, mas vêm surgindo de algumas portas os próprios Reis Magos que lhe trazem ofertas de sedas, além de presentes diversos: doces, frutas, pães, vinho. Uma grande estrela está imóvel no céu, mas ninguém a vê e pensam que é um balão atmosférico. Anjos, Espíritos e Santos de diversas seitas e Igrejas cercam o Menino e sua Mãe, invisíveis aos mortais. Um silêncio luminoso invade os céus de Copacabana, sim, porque o Filho de Deus acaba de nascer, trazendo bênçãos e esperança para todos. Nos morros, o batuque de Pais e Mães de Santo celebram a sua Glória. Nas Igrejas, padres liberam hinos elevados em sua homenagens. Taças de champanhe circulam nas mãos das madames ricas em festas particulares e brindam o pequeno. As crianças, já dormindo, sonham com ele vestido de Papai Noel, com ricos presentes de Natal. Os namorados se amam e se beijam nos becos e apartamentos, e exultam a sua gloriosa chegada.
Uma patrulha da polícia passa e olha para aquela estranha reunião e resolve investigar. Mas os anjos do Senhor espalham uma névoa nos olhos dos policiais e eles resolvem ir embora.
Porque no chão da Avenida Atlântica o filho de Deus acaba de nascer, agora cercado de uma população noturna que veio homenageá-lo e participar de sua ceia.

No ar, invisíveis, mas luminosos, os deuses celebram sua Glória e incensam o ar. E rezam para que o Menino se torne Homem e não seja crucificado, morto ou fuzilado a carpir a nossa culpa nos porões das masmorras de nossas prisões ou nos terrenos baldios e pantanosos das favelas!)