terça-feira, 14 de novembro de 2017

domingo, 12 de novembro de 2017

DEUS SONHA - VICTOR HUGO

DEUS SONHA - VICTOR HUGO
O dia acorda. Deus, por uma fresta
Das nuvens a espreitar, ri-se. A floresta,
O campo, o inseto, o ninho sussurrante,
A aldeia, o sol que finge a serrania...
Tudo isso acorda, quando acorda o dia
No fresco banho de ouro do Levante.
Deus sonha. Vaza os olhos d’água; pica
As artérias da terra; o lis fabrica,
E da matéria sonda o fundo ovário.
Pinta as rosas de branco e de vermelho,
E faz das asas vis do escaravelho
A surpresa do mundo planetário.
Homens! As férreas naus de velas largas
Monstros revéis, formidolosas cargas,
Do bruto oceano arfando as insolências
Extenuando os ventos, e nos flancos.
Largo enxame a arrastar de flocos brancos
De escuma, e raios e fosforescências...
Os estandartes de arrogantes pregas;
As batalhas, os choques, as refregas;
Náuseas de fogo de canhões sangrentos;
Feroz carnificina de ferozes
Batalhões - bando espesso de albatrozes
De asa espalmada e aberta aos quatro ventos...
Comburentes, flamívomas bombardas,
Ígnea selva de canos de espingardas,
Estampidos, estrépitos, clangores,
E, bêbedo de pólvora e fumaça,
Napoleão que galopando passa,
Ao ruflar de frenéticos tambores;
A guerra, o saque, as convulsões, o espanto;
Sebastopol em chamas, de Lepanto
A vau de lanças e clarins repleto...
Homens! Tudo isso, enquanto recolhido
Deus sonha, passa e soa ao seu ouvido
Como o rumor das asas de um inseto!
(Trad. de Raimundo Correia)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

COELHO NETO

11. COELHO NETO

ROGEL SAMUEL





 -Bolo de cupuaçu, Mestre? - perguntou Lima Silva, servindo o moço.
 - Sim, sim. A vida é a variedade... Assim como o paladar pede sabores diversos, assim a alma exige novas impressões, disse Coelho Neto. 
 -É uma iguaria amazonense, disse Karl Waldemar Scholz. Mas só na minha casa existe esta receita. 
 -Por quê? – quis saber o escritor num gesto de curiosidade.
 -Minha cozinheira aplicou a receita da torta de maça alemã.
 -Apfelstrudel? – perguntou Coelho Neto, em perfeita pronúncia alemã.
 -Sim, respondeu Scholz. Contém pedaços de castanha do Pará e calda de cupuaçu.
 -Uma delícia, disse o escritor, provando e balançando a cabeça.
Era dia 10 de setembro de 1899.
Coelho Neto deixaria Manaus no dia seguinte, no paquete “Manaus”.
Antes de partir, pose para o fotógrafo Lucciani. 
Coelho Neto, maranhense, filho de um português e de uma índia, desembarcou na noite de 11 de agosto. Estava na cidade há 26 dias, no Hotel Cassina. Ele já era famoso aos 35 anos.
Alto, magro, discretamente elegante.
Tinha publicado, naquela época, sete romances, sete livros de contos, quatro volumes de crônicas, três novelas, dois volumes de “educação moral e cívica”, dois poemas dramáticos, uma balada e uma conferência. 
Era redator da “Gazeta do Rio”, de Patrocínio; e do “Diário de Notícias”, de Rui Barbosa.
Dava aula de história da arte na Escola Nacional de Belas Artes.
Coelho Neto pertencia ao grupo de Bilac, Murat, Aluísio de Azevedo, Raimundo Correia, Paula Ney, Guimarães Passos, Raul Pompéia, Martins Fontes. 
Já na primeira noite em Manaus esteve reunido com a intelectualidade amazonense.
Jantou com Raul de Azevedo, Fran Paxeco e Cláudio de Sousa, que era médico em Manaus.
Cláudio de Sousa, depois, entrou para a Academia Brasileira de Letras.
No dia seguinte, no Teatro Amazonas, foi assistir, junto com o Governador Ramalho, à opereta portuguesa: “Os 28 dias de Clarinha”. 
No outro dia, almoçou com amigos, a bordo, visitou Eduardo Ribeiro na sua chácara, almoçou na casa do diretor do “Amazonas Comercial”,  no Palácio do Governo, na chácara de Inácio Pessoa, na casa de Th. Vaz.
Visitou o Centro Artístico, o Congresso, o Ginásio, a Escola Normal, o Instituto Benjamin Constant, o quartel de polícia, o hospital da Beneficência Portuguesa.
Participou de um piquenique no Tarumã, de um baile de gala no “Sport Club”... Coelho Neto parecia chefe de estado.
No Teatro Amazonas durante a operetta “Dia e noite”,  foi glorificado com duas bandas de música e por discurso de Claudio de Sousa. Houve hino nacional e discurso do próprio escritor. 
-Volto amanhã para o Rio, disse Coelho Neto.
E acrescentou:
-Estou cansado e saudoso. Deixei no Rio um filho recém-nascido e a viagem foi longa.
- Muito longa? - indagou, vivamente, Lima Silva.
- Parei no Espírito Santo, na Bahia, em Sergipe, em Pernambuco, na Paraíba, em Fortaleza, no Maranhão, no Pará.
Depois de alguns minutos de conversação, Lima Silva disparou:
- Tem visto Thaumaturgo de Azevedo?
Houve momento de constrangimento. Coelho Neto corou. 
O arguto Lima Silva queria saber o que estava por trás daquela viagem, pois o escritor não devia ter vindo a Manaus somente para almoçar e ser homenageado.
Sabia que Coelho Neto era ligado aos militares republicanos, como secretário-geral da Liga de Defesa Nacional. Coelho casou-se com Maria Gabriela Brandão, logo após a Proclamação da República, tendo como padrinho o próprio Presidente Deodoro da Fonseca. O casal teve treze filhos, dos quais só sete sobreviveram. Devia conhecer de perto o ex-governador Thaumaturgo, que era amigo de Deodoro. 
- Sim, tenho visto, disse ele, meio sem jeito.
- E Fileto Pires Ferreira? – perguntou Lima Silva.
- Este está recluso na sua casa no Andaraí. Mora no meio de um pântano...
- No meio da floresta?
- Sim, não visita ninguém, nem recebe, mas luta por seus direitos. Está preparando um livro que vai chamar-se “A verdade sobre o caso do Amazonas”.
- E depois de um gole, acrescentou:
- Por aqui ninguém fala dele, só de Eduardo Ribeiro.
- Sim, é verdade.
- É a glorificação do Eduardo Ribeiro. O governo de Fileto parece que nem existiu, que foi uma nulidade.
- Mas não foi, redargüiu Lima Silva. Foi melhor do que o de Eduardo.
- Como assim? – indagou o escritor.
- Fileto governou 19 meses. Eduardo quase 8 anos. No Governo de Eduardo Ribeiro, houve a construção... (e Lima Silva foi descrecendo as realizações de Euduardo Ribeiro).
- Tudo isso? Perguntou o escritor maranhense?
- Sim. Mas nos 19 meses do Governo de Fileto Pires houve a inauguração do Serviço de Eletricidade, escavações, nivelamentos e calçamentos das ruas 7 de Dezembro, Demetrio Ribeiro, Quintino Bocaiúva, Marechal Deodoro, Independência, Barroso, Saldanha Marinho, Marcilio Dias, 10 de Julho, Jose Clemente, Monsenhor Coutinho (Progresso), Emilio Moreira, Ramos Ferreira, Ipixuna, Oriental e Marques de Santa Cruz...  215.000 m3 de aterros e desaterros. Fileto fez o aterro do Igarapé dos Remédios, com 80.000 m3 de terra retirada da praia do Rio Branco, onde hoje está Escola Técnica Federal, no trecho entre Mundurucus e ponte dos Remédios. Fez a continuação das obras do Palácio da Justiça e do Palácio do Governo (nunca concluído). O Palácio do Governo, obra monumental, jamais concluída, seria o maior prédio já construído no Brasil de sua época. Fileto terminou a rampa da Praça 15 de Novembro e dos jardins da Matriz. Fechou o contrato do melhoramento do porto e para o estabelecimento da viação urbana e suburbana. Manaus nos fins de 1897 já possuía 16 quilômetros de linhas, 25 bondes para carga e 10 para passageiros, tendo transportado 171.783 usuários, a 250 reis a passagem. Fileto fez a iluminação dos bairros do Mocó, Cachoeira Grande e Cachoeirinha. Instalou 300 lampiões a nafta, fez a construção da rede complementar de água, instalou o serviço telefônico de 330 aparelhos, cujo início de funcionamento se deu em 1897. Fileto concluiu as obras do Teatro Amazonas, que estavam paradas e o inaugurou em 31 de dezembro de 1896.
 - Tudo isso em 19 meses? 
 - Sim. E não deixou dívidas, mas um monstruoso saldo. Ele começou seu governo pagando as dívidas, pois Eduardo Ribeiro tinha deixado o Governo quebrado. Fileto pagou todas as dívidas do governo anterior e alavancou as obras. 
- O Sr. tem razão, doutor. 
 No fim daquela tarde Lima Silva desconfiou que Coelho Neto tinha vindo ao Amazonas como observador político da capital para preparar o desfecho que ia ser cassar a pretensão de Eduardo Ribeiro de assumir o Senado.



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

"COELHO NETTO E SUA OBRA" DE PÉRICLES MORAES

No Brasil, a fecundidade literária do sr. Coelho Neto é um exemplo isolado. Pode-se dizer que nas nossas letras, desde que a nossa literatura deixa de ser uma ficção para tomar forma e se revelar, não se conhece outro escritor dotado de maior ou de igual disciplina de trabalho. Prosador nato, dos melhores de nossa língua, a sua obra aperfeiçoa-se de dia para dia, ramifica-se, irradia-se, exerce influências, determina uma época literária; e muito embora a crítica de hoje, desconfiada e bisonha, faça restrições ao seu valor intrínseco, não há como recusar-lhe a primazia com as de maior nomeada. Não afirmaremos que o escritor tivesse tido sempre as palmas da vitória em todas as experiências que o diletantismo de seu espírito praticou. Mas, se como poeta o sr. Coelho Neto foi apenas um delicado amador, se não há notícia de suas incursões na tragédia, é soberano o seu principado no conto e no romance, que os concebeu e realizou com a mesma inexcedível perfeição dos mais eminentes mestres universais. É certo que a sua obra nem sempre foi meditada e sentida nos silêncios inspirativos do gabinete, o espírito calmo, o homem desobrigado da vida nos travores de suas exigências materiais cotidianas. Alguns dos volumes de sua bibliografia se ressentem da precipitação com que foram planejados e compostos, o escritor operando o milagre de viver das letras, sob a pressão de um ambiente refratário e hostil a quaisquer manifestações da inteligência. Ainda assim do tumulto desses conflitos desiguais, traído pela inveja, sitiado pela indiferença, emparedado entre as muralhas dos obstáculos crescentes da vida, quantas maravilhosas obras-primas. Obra-prima o “Tubilhão”, escrito assim, na azáfama do jornal, para o cumprimento da tarefa diária; obras-primas o surto flaubertiano do “Rei Fantasma” e, ainda, essa linda fantasia oriental do “Rajah de Pendjah”, ambas realizadas da mesma forma, para o folhetim cotidiano, e que revelam de pronto o escritor, a sua visão simultânea de colorista e de imaginativo através do frêmito alucinado que lhe convulsiona as ideias. Já houve, aliás, quem atribuísse a vitalidade das obras-primas, estudando-lhes a gênese, ao impulso instantâneo do pensamento, à transição epilética que age e hipnotiza o criador no instante da criação. Apenas Flaubert, excepcionalmente, transgrediria a regra. Porque Saint Victor viveu assim as páginas todas do “Hommes et Dieux”; Paul Adam escrevia na redação do vespertino em que colaborava os capítulos da “Critique des Moeurs”; Anatole somente começava a compor as páginas de crítica da “Vie Littéraire”, reunidas depois nos quatro volumes célebres, quando o chasseur do jornal lhe vinha buscar os autógrafos; e Sainte-Beuve fazia precipitadamente, ainda sob a impressão de sua última leitura, cada um dos notáveis estudos das “Causeries du Lundi”. Quem leu a correspondência de Barbey d”Aurevilly dirigida a Léon Bloy, sem nenhuma notoriedade naquele tempo, humilde revisor de provas do impiedoso demolidor, avalia a desordem dos processos de composição do autor das “Diaboliques”, sobretudo quando dinamitava os seus contemporâneos. Faz-se mister acentuar, em proveito do escritor patrício, a diversidade flagrante de concepção do que diz respeito às suas ideias.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

"COELHO NETTO E SUA OBRA" DE PÉRICLES MORAES - em e-book

"COELHO NETTO E SUA OBRA" DE PÉRICLES MORAES - em e-book - O MAIOR LIVRO DA LITERATURA AMAZONENSE DE TODOS OS TEMPOS, COM PREFÁCIO DE ROGEL SAMUEL... LEIA EM http://concultura.manaus.am.gov.br/…/Coelho-Neto-e-sua-obra…

SOBRE BULLYING E VIOLÊNCIA – R. SAMUEL

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SOBRE BULLYING E VIOLÊNCIA – R. SAMUEL
Como mediação da violência, a própria divindade do Bem, o Cristo, sofre a violência em si, em seu “corpo”, tal qual quando havia a possibilidade da vingança individual. O “olho por olho” é transformado em “Cordeiro de Deus”, para que seja neutralizada a violência, e para que seja restabelecida a ordem perdida. A própria divindade do Bem se oferece como vítima da violência do Mal. E os gloriosos Deuses são substituídos por um Deus sacrificado pelo homem. Trata-se de uma inversão: O Deus passa a vítima do homem. Trata-se de um Deus que sofre a violência, não mais que a exerce, revelando que o homem, para impor-se anulou o potencial da divindade em seu proveito dominador, a divindade se torna vítima e se renuncia a si mesma.
Se o homem moderno foi capaz de sacrificar Deus, não devemos ter dúvidas de que é capaz de sacrificar qualquer coisa (a Primeira Guerra Mundial fez treze milhões de vítimas, a Segunda cerca de trinta milhões) ou de sacrificar a sobrevivência da vida na Terra. Porque é da natureza do homem o sacrifício. É próprio da natureza do homem a criação de mitos para serem sacrificados.

domingo, 22 de outubro de 2017

O BULLYING NÃO É COISA NOVA

O BULLYING NÃO É COISA NOVA

ROGEL SAMUEL


Há anos já existia. Eu assisti bullying muitas vezes. A diferença, hoje, está redes sociais. Florestan Fernandes conta como sofreu por ser filho de mãe solteira, na Universidade. Os mais sofredores são os alunos negros, gays e trans. Um dia eu tinha nas mãos um velho cartão-postal. E uma edição deLa vida es sueño. Era uma velha loja no centro velho da cidade, uma loja de coisas usadas, talvez um bazar beneficente. Estava cheia de trastes cobertos de uma poeira decadente. Quando entrei fui logo atraído pela pilha de livros a um canto, onde descobri o livro de Calderón. Depois descobri uma caixa de sapato cheia de velhas fotografias. O cartão postal. Era uma foto velha, mas muito nítida, meio sépia, da minha cidade natal. A rua era aquela. Pude reconhecer cada pedra, cada porta, cada janela. Sabia mesmo quem habitava ali. Na grande casa da esquina morava o meu amigo de infância X. Quando sua mãe estava grávida, uma vidente lhe disse: ia ser menina. A família preparou um enxoval de menina. Nasceu menino. Quando tinha sete anos de idade, disse para a mãe: queria ser bailarino. A mãe se persignou. Nada disse para o marido, que era violento. Quando tinha doze anos entrou para aquela escola, onde o conheci. Como era muito louro, belo, alto e feminino, na escola só encontrou inimigos. Ninguém se aproximava. Na rua os moleques freqüentemente tentavam agredi-lo. Ele chorava. Quando passavam pela frente de sua casa, gritavam palavrões, faziam gestos indecentes e jogavam pedras. Por isso quase não saía de casa. Mas se vestia muito bem. Família rica e conhecida na cidade. Usava umas blusas de seda branca, que dizem ele mesmo fazia. A mãe todos os dias ia levá-lo ao colégio. A mãe era amiga de nossa família. Mas nossas mães nos proibiam de falar com ele. Ele só se aproximava de algumas meninas, no recreio. Mas era um bom aluno e excelente desenhista. Quando tinha cerca de quinze anos, o pai o surpreendeu vestido com roupa da mãe, todo pintado. Espancou-o tão violentamente que ele ficou vários dias sem poder ir à escola, com hematomas no rosto. Logo no fim do ano eu me mudei para o Rio de Janeiro e o perdi de vista. Soube que o pai o expulsara de casa. Foi morar com umas tias, no Rio. As tias o rejeitavam, mas o pai era rico e pagava bem. Quando o pai soube que ele dormia fora suspendeu o pagamento. Sem pagamento, as tias o expulsaram. Contam que ele vivia nas ruas, onde se prostituía. Depois trabalhou como cabeleireiro e manicuro. Aquela loja estava cheia de trastes velhos, cobertos de uma poeira decadente. Quando fui pagar, a velha que me atendeu falou, com  estranha voz: “Eu nasci aí, nesta cidade”. Era ele, o meu amigo X. Não me reconheceu. Aquela mulher tinha os dentes estragados, o ralo cabelo branco mal pintado, amarrado para atrás. Era um ser em ruína. Eu nada disse, paguei e saí da loja, sobraçando o livro de Calderón,   La vida es sueño

HEIDEGGER

HEIDEGGER

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A QUESTÃO FUNDAMENTAL DA METAFÍSICA 

Trad. Emmanuel Carneiro Leão

Por que há simplesmente o ente (1) e não antes o Nada? Eis a questão. Certamente não se trata de uma questão qualquer. “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?” - essa é evidentemente a primeira de todas as questões. A primeira, sem dúvida, não na ordem da seqüência cronológica das questões. Em sua caminhada histórica através do tempo o homem e os povos investigam muito. Pesquisam e procuram e examinam muitas coisas antes de se depararem com a questão, “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?” Muitos nunca a encontram, não no sentido de a lerem e ouvirem formulada, mas no sentido de investigarem a questão, i.e, de a levantarem, de a colocarem, de se porem no estado da questão. 
E não obstante todos são atingidos uma vez ou outra, talvez mesmo de quando em vez, por sua fôrça secreta, sem saberem ao certo, o que lhes acontece. Assim num grande desespero, quando todo peso parece desaparecer das coisas e se obscurece todo sentido, surge a questão. Talvez apenas insinuada, como uma badalada surda, que ecoa na existência (2) e aos poucos de novo se esboroa. Assim num júbilo da alma, quando as coisas se transfiguram e nos parecem rodear pela primeira vez, como se antes nos fosse possível perceber-lhes a ausência do que a presença e essência. Assim numa monotonia, quando igualmente distamos de júbilo e desespero e a banalidade do ente estende um vazio, onde se nos afigura indiferente, se há o ente ou se não há, o que faz ecoar de forma especial a questão: Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada? 
Em todo caso, quer seja mesmo investigada ou quer, ignorada como questão, perpasse pela existência como um hálito tênue, quer nos pressione mais duramente ou quer se veja preterida e recalcada por qualquer pretexto, de fato nunca é a questão que na ordem cronológica investigamos por primeiro. 
Mas é a primeira questão em outro sentido - a saber quanto à dignidade. O que se explica de três modos. A questão, “por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?”, se constitui para nós na primeira em dignidade antes de tudo por ser a mais vasta, depois por ser a mais profunda e afinal por ser a mais originária das questões. 
A questão cobre o máximo de envergadura. Não se detém em nenhum ente de qualquer espécie. Abrange todo ente, i. e, não só o ente atual no sentido mais amplo, como também o ente, que já foi e o que ainda será. O arco da questão encontra seus limites apenas no que absolutamente nunca pode ser, no Nada. Tudo, que não for nada, cai sob seu alcance, no fim até mesmo o próprio Nada. Não certamente por ser alguma coisa, um ente, de vez que dele falamos, mas por “ser” o Nada. É tão vasto o âmbito da questão, que nunca o poderemos ultrapassar. Não investigamos esse ou aquele nem mesmo, percorrendo um por um, todos os entes, mas antecipadamente o ente todo, ou como dizemos, por razões a serem discutidas ainda, o ente como tal na totalidade. 
Com ser assim a mais vasta, a questão é ainda a mais profunda: “Por que há simplesmente o ente...? “ “Por que” significa, qual é o fundo? De que fundo provém o ente? Em que fundo descansa o ente? A questão não investiga isso ou aquilo no ente, o que ele é cada vez, aqui ou ali, como é constituído, pelo que pode ser modificado, para que serve etc... Ela procura o fundo do ente enquanto ente. Procurar o fundo, isso é aprofundar. O que se põe em questão, entra assim numa referência com o fundo. sendo, porém, uma questão, fica aberto, se o fundo (Grund) é um fundamento originário (Ur-grund), verdadeiramente fundante, que produz fundação; ou se ele nega qualquer fundação e é assim um abismo (Ab-grund); ou se o fundo não é nem uma nem outra coisa, mas dá simplesmente uma aparência, talvez necessária, de fundação, tornando-se destarte um simulacro de fundamento (Un-grund). Como quer que seja, procura-se decidir a questão no fundo, que dá fundamento para o ente ser, como tal, o ente que é. Essa questão do “por quê” não procura causas de igual espécie e do mesmo plano que o ente. Não se move em nenhuma fácie ou superfície. Afunda-se nas regiões profundas e vai até os últimos limites dos fundos. É avessa a toda superfície e planura, voltada para as profundezas. A mais vasta, é igualmente a mais profunda das questões profundas. 
Por ser a mais vasta e profunda das questões, é também a mais originária. O que se deve entender por isso? Ao refletirmos sobre todo o âmbito do que se põe em questão, o ente como tal no seu todo, depara-se-nos fàcilmente o seguinte: Afastamo-nos inteiramente de qualquer ente particular, enquanto este ou aquele. Intencionamos sim o ente em seu todo mas sem qualquer preferência. Apenas um dentre eles sempre de novo se insinua estranhamente: o homem, que investiga a questão. Não obstante, não está em questão nenhum ente particular. No sentido de seu raio ilimitado de ação Lodos os entes se equivalem. Um elefante numa floresta virgem da Índia é tão bem um ente, quanto um fenômeno de combustão química no planeta Marte ou qualquer coisa outra. 
Para satisfazermos, portanto, a questão, “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?”, no sentido correto de sua investigação, devemos eliminar a preferência de qualquer ente em particular, inclusive a referência ao homem. Pois o que é esse ente! Imaginemos a terra na imensidão obscura do espaço no universo. Proporcionalmente não passa de um minúsculo grão de areia com um quilômetro de extensão, e o resto é o vácuo Em sua superfície vive rastejando em profusão um punhado entorpecido de animais pretensamente astutos, que por um instante descobriram o conhecimento (Cfr. Nietzsche, Sobre a Verdade e a Mentira no sentido extra-moral, 1873 inédito). E o que significa o espaço de tempo de uma vida humana no curso de milhões de anos? Mal uma pulsação do ponteiro de segundos, um sopro de respiração. Dentro da totalidade do ente não há razão para se privilegiar este ente, que se chama homem e ao qual pertencemos por acaso. 
Mas tão logo o ente em seu todo cai no campo de força da questão, investe-o a investigação, com a qual entra numa relação sui generis, porque única. Pois somente nela o ente em seu todo se revela como tal, se abre na direção de seu possível fundamento e assim se mantém em questão. Para ele a investigação não é um fenômeno qualquer dentro do real, como p . e. a queda dos pingos de chuva. A questão do “por quê” defronta-se por assim dizer, com o ente no seu todo. Dele como que se desliga, embora não de todo. E é justamente o que lhe confere uma distinção. Ao defrontar-se com o ente no seu todo, sem, todavia, se lhe poder escapar de todo, repercute o que na questão se investiga, sobre a própria investigação. Por que o por quê? Em que se funda a questão do por quê, que pretende pôr o ente no todo em seu próprio fundo. Será ainda esse “por que” uma questão sobre o fundo entendido, como superfície, de sorte que sempre se procura um ente para fundamento? Não é essa “primeira” questão a primeira em dignidade, considerada segundo o valor intrínseco da questão do Ser (3) e suas modalidades. 
Sem dúvida alguma — quer se ponha a questão, “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?”, quer não, em nada se altera o ente em si mesmo. Também sem ela os planetas continuam a percorrer as suas órbitas. Também sem ela o elã da vida continua a pulsar através dos animais e das plantas. 
Se, porem, for posta de maneira devida, dar-se-á necessariamente uma repercussão, do que se investiga, sobre a própria investigação. Por isso não se investiga, sobre a própria investigação. Por isso não se trata de um fenômeno qualquer mas de um evento especial, que chamamos um acontecimento. 
Como todas as demais questões nela diretamente radica das, nas quais se desenvolve, a questão do “por quê” é irredutível a qualquer outra. Impele ã procura de seu próprio por quê. A primeira vista e considerada de um ponto externo, a questão “por que o por quê? assemelha-se a uma repetição jocosa, que se poderia repetir até ao infinito, da mesma partícula interrogativa. Parece mesmo uma especulação vazia e desvairada sobre significações verbais sem conteúdo. Certamente assim o parece. Trata-se apenas de saber, se nos deixaremos enganar por essa aparência demasiado fácil, dando logo tudo por resolvido, ou se ainda seremos capazes de experimentar na repercussão da questão do “por quê” sobre si mesma um acontecimento provocante. 
No caso, porém, de não sermos vitimas de uma ilusão de ótica, havemos de ver, que a questão do “por quê” na qualidade de questão sobre o ente como tal no seu todo, nada tem a ver com qualquer jogo de palavras. Suposto, ainda possuirmos tanta fôrça de espírito para realizarmos verdadeiramente a repercussão sobre seu próprio por quê. Pois tal repercussão não se fará certamente por si mesma. Então faremos a experiência de fundar-se essa questão eminente num salto. No salto, em que se deixa para trás (4) toda e qualquer segurança da existência seja verdadeira ou presumida. Sua investigação ou se concretiza no salto e como salto ou não se realiza nunca. O que significa aqui “salto”, esclarecer-se-á mais adiante. A questão não é o salto. Nele se deve transformar. Ela ainda se acha inocentemente ‘defronte do ente. Por ora basta saber, que o salto dá origem (er-springt) ao próprio fundamento da investigação. Saltando, ela origina para si o fundo, em que se funda. Um tal salto, que origina para si seu próprio fundamento, denominamos, de acordo com a significação verdadeira da palavra, um salto originário. (5) Ora, uma vez que a questão, “por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?” dá origem ao fundamento de toda questão verdadeira e lhe é, nesse sentido, originária, deve-se reconhecê-la, como a mais originária das questões. 
Assim, com o ser a mais vasta e profunda questão, é também a mais originária e vice-versa. 
[Introdução à metafísica. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1969.]

TOBIAS BARRETO

DEVE A METAFÍSICA SER CONSIDERADA MORTA?

TOBIAS BARRETO


A questão de saber se a metafísica deva ou não ser considerada como exausta e morta, escapa, sem dúvida, se não completamente ao programa, pelo menos aos limites desta pequena folha.
Pedimos, todavia, respeitosamente, ao público a permissão de apresentá-la ao círculo de nossos leitores e contribuir com algum esforço para a sua solução.
Antes de mais nada, merece reparo como os espíritos em nosso país se portam no que diz respeito a semelhante indagação. O que melhor e mais acertado se pode afirmar no assunto é que o ponto de vista filosófico do nosso pretenso mundo científico é caduco e sem o mínimo préstimo. Não resta a mais leve dúvida que até as estrelas de primeira grandeza, os mais afamados pensadores e escritores da terra se distinguem pela sua fé implícita no velho Deus da teologia e da Igreja. Nada sabem de sério do desenvolvimento da vida intelectual do tempo presente e ousam falar de tudo, de filosofia, de religião, de ciência, e do que falam fazem grande alarde.
Uma coisa, porém, urge observar e é que com essa enorme ignorância correm emparelhados o orgulho e o desprezo pelos mais notáveis feitos científicos estrangeiros, notadamente alemães.
É isto suficiente para caracterizar, de um lado a deplorável condição em que nos achamos, e por outro, justificar o interesse que tomamos em responder à pergunta proposta. Se em nossos dias nenhum homem verdadeiramente culto deve ignorar que o dogmatismo da metafísica moderna foi abalado por Hume, cuja implacável crítica coube a Kant concluir em mais largas proporções e com mais considerável profundeza, há de causar admiração e grande espanto que tão triviais verdades ainda despertam entre nós.
Certo, antes que Augusto Comte, o fundador do positivismo na França, expelisse o absoluto para a região das quimeras, já Hume havia derrocado o edifício metafísico (... ) Foi, em verdade, a dúvida do genial filósofo escocês acerca da validade dos juízos sintéticos em geral, que veio a se tornar o estímulo e a fonte das profundas pesquisas de Kant; e este mesmo declarara, sem rebuço, que a crítica de Hume é que primeiro o despertara de seu sono dogmático. São, com efeito, profundamente penetrantes as fortes palavras, como que talhadas em mármore, com que o terrível céptico inglês fechou seu Ensaio sobre o Espírito Humano. Ele diz: - "Quando, convictos da doutrina aqui ensinada, penetramos numa biblioteca, que destruição devemos causar? Tomemos um livro de teologia ou de metafísica e perguntemos: contém investigações sobre grandezas e números? Não. Contém o resultado de experiências acerca de fatos e realidades existentes? Não. Jogue-se então o livro ao fogo, porque não poderá conter nada além de sofisticarias e mistificações". - Profunda e belamente dito.
Desde o momento em que semelhantes verdades foram impunemente pronunciadas, a metafísica deixou de poder ser considerada como pertencente ao grupo das ciências, quer quando fala do supersensível ou da essência das coisas, quer quando se pronuncia racionalmente sobre a substância da alma, a origem do mundo, a existência e os atributos da Divindade.
Toda a filosofia até o aparecimento de Kant, como ensina Schopenhauer, não passou de um sonho estéril de falsidade e servilismo intelectual, do qual os novos tempos só se libertaram pelo grado partido da Crítica da Razão Pura.
E cremos não estar em erro, proferindo a crença de que não teria Kant atingido o seu desenvolvimento, se não fora o influxo de Hume.
Distinguem-se no período pré-crítico do sistema kantesco dois estádios: no primeiro, esteve o grande filósofo sob o influxo da filosofia escolástica alemã; no segundo, sob a influência céptica. Foram principalmente Wolf, Locke e Hume que indicaram os marcos capitais por onde Kant teve de passar antes de descobrir os seus próprios.
Destarte, se reuniram nele todas as energias e esforços de seus predecessores. A parte de Hume tinha de ser a mais considerável e duradoura. Somente depois do genial escocês poderia vir um Kant: a estrada estava aberta, mas só ele a poderia verdadeiramente alargar.
II
A máxima de que as investigações metafísicas são estéreis em resultados e de que é perda completa de tempo ocupar o espírito com elas, está em favor entre numerosas pessoas que se gabam de possuir o senso comum, e nós ouvimo-la às vezes enunciar por autoridades eminentes, como se sua conseqüência lógica, a supressão desse gênero de estudos, tivesse a força de uma obrigação moral.
Neste caso, contudo, com noutros análogos, aqueles que promulgam as leis parecem esquecer que um legislador prudente deve tomar em consideração não só se o que ordena é coisa que se deva desejar, como ainda se é possível que se lhe obedeça. Porquanto, se a última questão é resolvida negativamente, não valeria certamente a pena agitar a primeira.
Tal é, efetivamente, a grande força da resposta a dar a todos aqueles que bem quiseram fazer da metafísica um artigo de puro contrabando espiritual. Que seja para desejar, ou não, o impor um direito proibitivo sobre as especulações filosóficas, é absolutamente impossível impedir-lhes a importação no espírito humano. E é assaz curioso notar que aqueles que proclamam com maiores brados abster-se dessas mercadorias são, ao mesmo tempo e em grande escala, consumidores inconscientes de uma ou de outra de suas inúmeras falsificações ou imitações e arremedos. Com a boca cheia de broa grosseira, terrivelmente indigesta, tão de seu gosto, prorrompem em invectivas contra o pão comum. Em verdade, o tentame de alimentar a inteligência humana com um regime estreme de metafísica é pouco mais ou menos tão feliz quanto o de certos pios orientais que pretendiam sustentar o corpo sem destruir vida alguma. Todos conhecem a anedota do micrógrafo sem contemplação que destruiu a paz de espírito de um desses doces fanáticos, mostrando-lhe os animais que pululam numa gota de água com a qual, na cândida inocência de sua alma, ele matava a sede; e o adorador confiante do senso comum pode expor-se a receber um abalo do mesmo gênero quando o vidro de aumento da lógica rigorosa revela os germes, se não as formas já adultas, de postulados essencialmente, fatalmente metafísicos que fervilham entre as idéias mais positivas e até as mais terra-a-terra.
Aconselha-se aí de ordinário ao estudante sério, para o arrancar aos fogos fátuos que brotam dos pântanos da literatura e da teologia, que se refugie no terreno firme das ciências físicas.
Mas o peixe legendário que pulou da frigideira ao fogo, não era mais tolamente aconselhado do que o homem que busca um santuário contra a perseguição metafísica entre as paredes do observatório ou do laboratório. Diz-se que a metafísica deve seu nome ao fato de que, nas obras de Aristóteles, tratam-se das questões da filosofia pura imediatamente depois das da física. Se isto é verdade, esta coincidência simboliza com felicidade as relações essenciais das coisas, porquanto a especulação metafísica segue de tão perto a teoria física quanto os negros cuidados seguem seu cavaleiro.
Basta mencionar as concepções fundamentais e realmente indispensáveis da filosofia natural que tratam dos átomos e das forças, ou as da energia potencial, ou as antinomias de uma vácuo ou não vácuo, para lembrar o fundo metafísico da física e da química, ao passo que, no tocante às ciências biológicas, o caso ainda é mais grave. Que é um indivíduo entre as plantas e os animais inferiores? Os gêneros e as espécies são realidades ou abstrações? Há uma coisa que se chama força vital? Ou este nome denota apenas uma relíquia de velho fetichismo metafísico? A teoria das causas finais é legítima ou ilegítimas? Eis aí alguns dos assuntos metafísicos sugeridos pelo mais elementar estudo dos fatos biológicos.
Não é tudo: pode-se dizer, sem medo de errar, que as raízes de cada sistema de metafísica repousam no fundo dos fatos da fisiologia. Ninguém pode contestar que os órgãos e as funções da sensação sejam tanto da esfera do fisiologista quanto o são os órgãos e funções do movimento, ou os da digestão; e, todavia, é impossível adquirir até o conhecimento dos rudimentos da fisiologia da sensação sem ser levado diretamente a um dos mais fundamentais de todos os problemas metafísicos. Com efeito, as operações sensitivas têm sido desde tempos imemoriais o campo de batalha dos filósofos.
(Ensaios e Estudos de Filosofia e Crítica - 1875)

Finlândia

Solveig von Schoultz, 1907-1996, Finlândia




O Coração
Solveig von Schoultz, 1907-1996, Finlândia

Demos-lhe sementes; não muitas,
mas quanto bastasse para não se cansar;
água lhe demos, apenas um dedal,
para a fonte lhe recordar.
Abrimos tão pouco a porta,
para que os céus lhe batessem no olhar
e à gaiola um pequeno espelho prendemos
para de frente a nuvem poder contemplar.
Quieta se sentava, com as asas palpitantes.
Assim ela cantava.
[ trad. josé agostinho baptista ]